terça-feira, 1 de julho de 2014

Treuffar

não me lembro de ter acordado tantas vezes em um só segundo
parecia até aquela foto recém moldada
bem no fundo
atrás das fotos de família
e das fotos constrangedoras daquela infância cheia de penas
mas ela não estava nem empoeirada e nem esquecida
sabe ?
lá no fundo você vê o que você passou
e o que aconteceu até você chegar lá
naquela foto recém moldada
onde o universo se passava em um segundo
e todo dia você ia lá
descobrir sua vida, seu lar
o teto branco
caindo sob o armário espelhado
...
eu lembro da neve prateada
tocando-me os dedos
da implosão  movendo-se pelo sincero perímetro de seu dedicado sorriso
e enquanto as cortinas se abriam o próximo ato
seus olhos de infinito
...
como uma gota solitária abrindo seu caminho
espalhando em calmas ondas
sua suavidade profunda de fogo tempestoso
que olhos...
e ao chegar à costa solitária
essa areia ardente queima meus pés
sou um homem de seu mar
óh Eurídice
o sol descansa após o inferno
deixe-me te alcançar
seja de corpo ou de espectro
seja em vida
ou mesmo repetindo a rima... no inferno


clemência
eu peço...
uma licença "poética" à nós
simplesmente um tabu, blasfêmia artística talvez
nascemos e vivemos
alimentando nossos corações
no fundo todos nos achamos grandes
as vezes grandes de mais para esse mundo
escrevemos e pintamos
levamos ao cosmos e aos olhos famintos
as verdades sofridas e prazerosas do tato e visão
tocamos as magias da audição ilimitada de todos ou outros sentidos
e cantamos a felicidade de ouvir
besteria...
piada, cócegas de poeira
clamamos por o que é tão impossível quanto não voar
perdidos em um quarto sem saída
quatro paredes e uma porta
como é tão impossível sair de lá ?
na verdade...
contestamos o todo
exclamamos ofegantes
sem voz
porque somos tão pequenos
amordaçados berrando dor por clemência
perdidos se esbaldam de nossa existência

estou morrendo
solenemente desaparecendo
eu estou pronto ?